A crise aberta pela nova fase da Operação Compliance Zero, que colocou o senador Ciro Nogueira no centro das investigações sobre o Banco Master, chegou ao Acre com efeito político direto sobre o grupo da governadora Mailza Assis Cameli.
Ciro é presidente nacional do Progressistas, partido de Mailza, e uma das principais lideranças do Centrão em Brasília. Ele também foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e comandou uma das legendas de direita que estiveram na base política do ex-presidente.
No Acre, sua presença não é apenas partidária. Ciro vinha atuando como um dos fiadores nacionais da pré-candidatura de Mailza ao governo em 2026. Em agendas recentes, apareceu ao lado da governadora, declarou apoio ao projeto do PP no Estado e reforçou a articulação nacional em torno do nome dela.
Nesta quinta-feira (7), o senador foi alvo de busca e apreensão autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. A Polícia Federal investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional no caso Banco Master.
Segundo informações divulgadas pela imprensa nacional, a investigação apura se Ciro teria recebido pagamentos mensais de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em troca de atuação política favorável aos interesses do banco. Uma das frentes trata de uma proposta no Congresso para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, medida que poderia beneficiar bancos médios.
A defesa de Ciro Nogueira nega irregularidades e afirma que o senador está à disposição da Justiça.
No Acre, o episódio ocorre um dia depois de outro impacto sobre o mesmo campo político. Na quarta-feira (6), o Superior Tribunal de Justiça condenou o ex-governador Gladson Cameli a 25 anos e nove meses de prisão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A Corte também fixou indenização milionária ao Estado do Acre.
Gladson é o principal padrinho político de Mailza. Foi com ele que a atual governadora chegou ao governo, primeiro como vice, depois assumindo o comando do Estado. A pré-candidatura de Mailza para 2026 nasce, portanto, dentro da estrutura política construída por Gladson no Acre e articulada nacionalmente por dirigentes como Ciro Nogueira.
A soma dos fatos cria um problema para o discurso de continuidade da governadora. De um lado, Gladson, liderança local do grupo, acaba de ser condenado pelo STJ. De outro, Ciro, dirigente nacional do partido de Mailza, virou alvo da Polícia Federal no escândalo do Banco Master.
Os Rueda na equação
A crise também passa pelo entorno da federação formada por Progressistas e União Brasil. Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, integra a cúpula da União Progressista ao lado de Ciro Nogueira. Ele também participou das articulações nacionais que confirmaram Mailza como nome do grupo para disputar o governo do Acre.
No Estado, a família Rueda tem presença direta no governo. Fábio Rueda, irmão de Antônio Rueda, é secretário da Representação do Governo do Acre em Brasília, preside o União Brasil em Rio Branco e se movimenta para disputar vaga de deputado federal pelo Acre.
Antônio Rueda também foi citado em reportagens nacionais envolvendo o Banco Master. A imprensa revelou que ele e uma irmã atuaram como advogados do banco de Daniel Vorcaro. Rueda admitiu a prestação de serviço jurídico, mas afirmou que a atuação foi regular. O nome dele também apareceu em outras apurações citadas pela imprensa, incluindo investigação relacionada à Operação Carbono Oculto. Rueda nega vínculo com ilícitos.
Esse ponto não desloca o centro da crise, mas amplia o desgaste no entorno político de Mailza. A governadora está ligada a uma federação comandada nacionalmente por Ciro Nogueira e Antônio Rueda, enquanto no Acre tem Gladson Cameli como principal referência política.
Não há acusação contra Mailza nesses casos. O efeito, por enquanto, é político. A pré-candidata do governo terá o desafio de tentar apresentar um projeto próprio em 2026 sem carregar integralmente o desgaste dos nomes que sustentaram sua chegada ao Palácio Rio Branco.
Para a oposição, o cenário oferece um caminho de ataque: associar a continuidade defendida por Mailza ao mesmo grupo atingido por condenação no STJ, operação da Polícia Federal e suspeitas envolvendo o Banco Master. Para o governo, a tarefa será tentar separar a imagem da governadora das crises que atingem justamente seus principais aliados e fiadores políticos.